a moça chegou na casa como em qualquer um dos outros dias em que ela visitava, cumprimentou quem estava na sala, conversou um pouco, mas naquele dia ela carregava um pedido, um favor. então foi ao quarto, assim meio que tentando desfarçar e entregou, pra menina que via televisão, um envelope daqueles pardos de tamanho médio, e não disse nada além de: "pediram pra entregar". o sujeito oculto era sabido pela garota esparramada na cama. o conteúdo do envelope era sonhado, mas inesperado. de repente a tv já perdia a cor, e a menina despejou sobre as flores cor de rosa do lençol aquele sentimento. via-se um souvenir colorido, macio e levemente gasto pelo tempo de gaveta e uma papel, dobrado, gasto como se existisse há algum tempo. ela, ainda tonta, olhava aquelas bolinhas vermelhas, despenteadas, e sentia um cheiro, cheiro antigo, que há muito não se fazia presente. então, criou coragem, e foi desdobrando o papel. aos poucos aquela letra que ela mal conhecia, mas que sabia, formava palavras soltas, que ela leu sem querer, antes do primeiro parágrafo. a carta começava com uma lágrima, dela, pois nunca havia visto seu nome escrito com aquela mão...
...o papel dizia sobre um dos anos passados, um tempo que fez frio, fez história. falava das mudanças que teriam ocorrido desde então, contava sobre os pensamentos que ela não tinha presenciado. dizia coisas que ela queria ouvir, mas também assumia palavras que ela no fundo já sabia, mas não eram agradáveis. no fim da folha, acabou que ela percebeu que a pedra que a machucava, estourou mais rápido por lá. no fim das contas, remetente e destinatario, no fundo no fundo, não estavam preparados pra nada...ou um estava mais que o outro. enfim, não que não tenha sido sincero, era o que dizia a tinta da bic, não que não tenha feito falta, não que não fosse desejado. foi. deixou de ser por causa do tempo, novo demais, mas poderia voltar a ser se o tempo mandasse. as reticências no fim da última frase ("dá voltas...") são as reticências que sempre existiram, sempre formaram lacunas, sempre fizeram permanecer...as reticências que são característica principal dos dois.
bom, àquela altura, ela ja tinha seus caminhos novos, mesmo que sempre com a memória intacta; ele já havia feito muitas coisas, vivido mais outras, mas acabou que não conseguiu esquecer aqueles olhos. talvez tivessem nascido um pro outro, talvez a carta fosse só esclarecimento, talvez eles casem, talvez eles nunca mais se falem, talvez eles aindam saiam pra jantar entre amigos, como amigos, com seus "amigos".
mas nenhum dos dois irá esquecer aquele envelope pardo, que a propósito foi devolvido mas havia apenas um pedaço de borracha preta dentro, nada de cartas. ele vai sentir falta do souvenir, ela vai lembrar sempre daquilo que por muito foi quase uma segunda pele. mas cada um dos dois, vai poder saber dali pra frente, que valeu a pena de certa forma. cada um em seu canto, vai saber viver mais tranquilo a partir daquele dia.
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