Elisa Lucinda
Texto para uma separação
Olhe aqui, olhos de azeviche
Vamos acertar as contas
porque é no dia de hoje
que cê vai embora daqui...
Mas antes, por obséquio:
Quer me devolver o equilíbrio?
Quer me dizer por que cê sumiu?
Quer me devolver o sono meu doril?
Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar?
Quer me deixar na minha?
Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha?
Olhe aqui, olhos de azeviche:
Quer parar de torcer pro meu fim
dentro do meu próprio estádio?
Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio?
Vem cá, não vai sair assim...
Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho?
Assim: agora fica de joelhos
e comece a cuspir todos os meus beijos.
Isso. Agora recolhe!
Engole a farta coreografia destas línguas
Varre com a língua esses anseios
Não haverá mais filho
pulsações e instintos animais.
Hoje eu me suicido ingerindo
sete caixas de anticoncepcionais.
Trata-se de um despejo
Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo.
Pronto: última revista
Leve também essa bobagem
que você chamou
de amor à primeira vista.
Olhos de azeviche, vem cá:
Apague esse gosto de pescoço da minha boca!
E leve esses presentes que você me deu:
essa cara de pau, essa textura de verniz.
Tire também esse sentimento de penetração
esse modo com que você me quis
esses ensaios de idas e voltas
essa esfregação
esse bob wilson erotizado
que a gente chamou de tesão.
Pronto. Olhos de azeviche, pode partir!
Estou calma. Quero ficar sozinha
eu co'a minha alma. Agora pode ir.
Gente! Cadê minha alma que estava aqui?
sexta-feira, 26 de agosto de 2005
sexta-feira, 19 de agosto de 2005
Elisa Lucinda
Aviso da Lua que Menstrua
Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Aviso da Lua que Menstrua
Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.
Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia
Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.
Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na "vera"
conheço cada uma, além de ser uma delas.
Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.
Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a "cidade secreta"
a Atlântida perdida.
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.
Ela é uma cobra de avental.
Não despreze a meditação doméstica.
É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...
Você que não sabe onde está sua cueca?
Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.
E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.
São duas dignas vizinhas do mundo daqui!
O que você tem pra falar de vaca?
O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.
Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.
Tá, não, homem.
Tá citando o princípio do mundo!
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segunda-feira, 1 de agosto de 2005
contos utópicos
a moça chegou na casa como em qualquer um dos outros dias em que ela visitava, cumprimentou quem estava na sala, conversou um pouco, mas naquele dia ela carregava um pedido, um favor. então foi ao quarto, assim meio que tentando desfarçar e entregou, pra menina que via televisão, um envelope daqueles pardos de tamanho médio, e não disse nada além de: "pediram pra entregar". o sujeito oculto era sabido pela garota esparramada na cama. o conteúdo do envelope era sonhado, mas inesperado. de repente a tv já perdia a cor, e a menina despejou sobre as flores cor de rosa do lençol aquele sentimento. via-se um souvenir colorido, macio e levemente gasto pelo tempo de gaveta e uma papel, dobrado, gasto como se existisse há algum tempo. ela, ainda tonta, olhava aquelas bolinhas vermelhas, despenteadas, e sentia um cheiro, cheiro antigo, que há muito não se fazia presente. então, criou coragem, e foi desdobrando o papel. aos poucos aquela letra que ela mal conhecia, mas que sabia, formava palavras soltas, que ela leu sem querer, antes do primeiro parágrafo. a carta começava com uma lágrima, dela, pois nunca havia visto seu nome escrito com aquela mão...
...o papel dizia sobre um dos anos passados, um tempo que fez frio, fez história. falava das mudanças que teriam ocorrido desde então, contava sobre os pensamentos que ela não tinha presenciado. dizia coisas que ela queria ouvir, mas também assumia palavras que ela no fundo já sabia, mas não eram agradáveis. no fim da folha, acabou que ela percebeu que a pedra que a machucava, estourou mais rápido por lá. no fim das contas, remetente e destinatario, no fundo no fundo, não estavam preparados pra nada...ou um estava mais que o outro. enfim, não que não tenha sido sincero, era o que dizia a tinta da bic, não que não tenha feito falta, não que não fosse desejado. foi. deixou de ser por causa do tempo, novo demais, mas poderia voltar a ser se o tempo mandasse. as reticências no fim da última frase ("dá voltas...") são as reticências que sempre existiram, sempre formaram lacunas, sempre fizeram permanecer...as reticências que são característica principal dos dois.
bom, àquela altura, ela ja tinha seus caminhos novos, mesmo que sempre com a memória intacta; ele já havia feito muitas coisas, vivido mais outras, mas acabou que não conseguiu esquecer aqueles olhos. talvez tivessem nascido um pro outro, talvez a carta fosse só esclarecimento, talvez eles casem, talvez eles nunca mais se falem, talvez eles aindam saiam pra jantar entre amigos, como amigos, com seus "amigos".
mas nenhum dos dois irá esquecer aquele envelope pardo, que a propósito foi devolvido mas havia apenas um pedaço de borracha preta dentro, nada de cartas. ele vai sentir falta do souvenir, ela vai lembrar sempre daquilo que por muito foi quase uma segunda pele. mas cada um dos dois, vai poder saber dali pra frente, que valeu a pena de certa forma. cada um em seu canto, vai saber viver mais tranquilo a partir daquele dia.
...o papel dizia sobre um dos anos passados, um tempo que fez frio, fez história. falava das mudanças que teriam ocorrido desde então, contava sobre os pensamentos que ela não tinha presenciado. dizia coisas que ela queria ouvir, mas também assumia palavras que ela no fundo já sabia, mas não eram agradáveis. no fim da folha, acabou que ela percebeu que a pedra que a machucava, estourou mais rápido por lá. no fim das contas, remetente e destinatario, no fundo no fundo, não estavam preparados pra nada...ou um estava mais que o outro. enfim, não que não tenha sido sincero, era o que dizia a tinta da bic, não que não tenha feito falta, não que não fosse desejado. foi. deixou de ser por causa do tempo, novo demais, mas poderia voltar a ser se o tempo mandasse. as reticências no fim da última frase ("dá voltas...") são as reticências que sempre existiram, sempre formaram lacunas, sempre fizeram permanecer...as reticências que são característica principal dos dois.
bom, àquela altura, ela ja tinha seus caminhos novos, mesmo que sempre com a memória intacta; ele já havia feito muitas coisas, vivido mais outras, mas acabou que não conseguiu esquecer aqueles olhos. talvez tivessem nascido um pro outro, talvez a carta fosse só esclarecimento, talvez eles casem, talvez eles nunca mais se falem, talvez eles aindam saiam pra jantar entre amigos, como amigos, com seus "amigos".
mas nenhum dos dois irá esquecer aquele envelope pardo, que a propósito foi devolvido mas havia apenas um pedaço de borracha preta dentro, nada de cartas. ele vai sentir falta do souvenir, ela vai lembrar sempre daquilo que por muito foi quase uma segunda pele. mas cada um dos dois, vai poder saber dali pra frente, que valeu a pena de certa forma. cada um em seu canto, vai saber viver mais tranquilo a partir daquele dia.
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