"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida."
(Vinícius de Moraes)
Será que é justamente nesse antagonismo que encontramos a arte da vida? Será que os encontros e desencontros aos quais somos submetidos são tudo aquilo que realmente nos importa, e de onde poderemos e devemos retirar tudo aquilo que se faz importante?
Porque se for, a partir de agora o significado de viver pode ser "envolver-se com a vida". Sim, envolver-se, não apenas estar vivo, acordar todos os dias e ligar o automático. Tirar dos desencontros, que na verdade podem ser encarados como encontros com as adversidades, as melhores lições, sempre. E que a cada novo encontro, aquele, caracterizado, possamos também enxergar neles as razões. E se razões não tiverem, que a partir deles possamos ter ações, que talvez sejam o que importa.
Mas admita, tão difícil viver e deixar de lado o medo de se comprometer com a máquina errante do ser-humanos não? Tão dificil não se entregar ao medo, mas à vida, simplesmente. Tão difícil, ainda, conseguir driblar o receio de ser perder daquilo que ja se encontrou. Tão difícil não se perder.
A vida é a arte de se encontrar, seja com pessoas ou situações, boas ou más. A arte da sua vida, da minha vida está em se envolver com ela a ponto de enxergar em cada desencontro uma lição e em cada encontro uma razão.
by Nathy - Eu
------------------------------------------------------------------------------------------------
Uma caixa não é só uma caixa
- ...Mas, infelizmente, não sei
ver carneiro através de caixa. Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que
envelheci....
Foi isso que ouvi naquele dia, quando papai lia para mim um
livro. Não lembro o nome. Sei que tinha um principezinho, sei que tinha um
elefante, a rosa, umas rosas.
- Como assim, ele não podia ver carneiro
através de caixa? – perguntei, indignado.
Papai tirou os olhos do livro e
transferiu-os para o sem fim.
- Como assim?
Ele não me ouviu. Não estava
mais ali. Levantei-me e fui até a cozinha, arrastando as meias encardidas no
chão.
- Mamãe, você consegue ver através de uma caixa?
- Estou ocupada
fazendo almoço.
- Mas é que eu não entendo. Você também não consegue ver
coisas dentro de uma caixa?
- Você quer que o almoço saia ou não?
- Sim,
mas...
Não falei mais nada. Olhei para ela e virei de costas para ir buscar
um papel. Peguei! Revirei minha caixa de brinquedos até achar a caixa de lápis
de cores. Pronto! Sentei-me e desenhei uma caixa. Fiz a caixa mais bonita que
consegui. Corri para a cozinha, com um sorriso imenso.
- Mamãe...
- Oi,
filho. – ela respondeu sem parar de mexer na panela.
- Olha o que desenhei.
- Uma caixa.
- Sim! – disse empolgado. – Aí dentro tem 5 filhotes de
cachorro! – comecei a rir. – Olha que lindos!
- Crianças! Vai brincar. Aí só
tem uma caixa... – enquanto ia para a sala ela resmungava – Onde já se viu, eu
ocupada e... ora essa.
Guardei os 5 filhotes embaixo da minha cama e comecei
a brincar, brigando com os insetos que estavam no meu quarto, com os morcegos
que vieram a seguir e com os crocodilos e jacarés, as onças e os ursos! Ganhei
todas as batalhas.
Naquele mesmo dia após o jantar, chegando próximo à casa
de minha professora de piano, ouvi um choro baixinho.
Fui andando mais
devagar até poder espiar na janela. Era a Sofia. Minha professora. Francesa de
nascimento, com leve sotaque quando dizia até um simples obrigado ou quando
dizia Beto, meu apelido, ela tinha olhos azuis bem claros e umas rugas que
evidenciavam o tempo de sua jornada. Os olhos dela estavam muito úmidos, e eu
pensei que ela devia estar enxergando tudo embaçado. Deve ter esquecido os
óculos dela em algum lugar! Aí ela não consegue achar, aí ela começou a chorar,
aí ficou mais difícil ainda de achar! É isso! Ah, doce inocência...
Bati à
porta, não uma, mas várias vezes.
Nada.
Silêncio.
Insisti. Toc, toc, toc.
Nada.
- Professora! Eu posso ajudar a achar os... Aí a senhora
vai ver tudo diferente! – gritei.
Passos. Sofia abriu a porta e eu a
abracei.
- Não chora, não precisa. Eu te ajudo.
- Você já sabe?
- O
que?
- Bernard...
- Que tem o Seu Bernardo – nunca conseguia falar
Bernard.
- Ele, se foi. Para sempre.
Meus olhos se arregalaram.
-
Isso quer dizer que a senhora não vai nunca mais falar com ele?
Ela balançou
a cabeça.
- Me espera 10 minutos. Eu já volto! Prometo.
Saí correndo,
com todo aquele fôlego que se tem aos 8 anos e voltei com o mesmo fôlego,
afinal, ainda tinha 8 anos.
- Toma - entreguei um papel a ela.
Enquanto
ela abria fui falando.
- Desenhei uma janela nessa folha.
- Muito
bonita, Beto... muito bonita!
- Ah, obrigado! – respondi. – Toda vez que
você quiser falar com o Bernardo, é só você pensar nele e olhar para a janela.
Ele vai aparecer do outro lado, aí vocês podem conversar!
Ela não falou
nada.
- Hoje papai leu para mim que tudo que a gente quer existe. Que a
gente tem é que acreditar.
- Posso te contar um segredo? – não esperei a
resposta dela. - Eu tenho 5 filhotes embaixo da cama! Papai não pode descobrir,
ou põe todos na rua!
Ela ficou me olhando, sorrindo.
- Ah, quando a
senhora conversar com ele, mande um abraço. Depois a gente repõe a aula.
Dei
um beijo nela e fui correndo alimentar Id, Tod, Rex, Duke e Jod. O 5 filhotes.
-x-x-
“...Mas, infelizmente, não sei ver carneiro através de
caixa. Sou um pouco como as pessoas grandes. Acho que envelheci....”
Há pessoas que não vêem um carneiro
Através de uma caixa. Elas
são como um
Pedreiro que não vê o prédio inteiro
Em cada tijolo usado,
cada um
Dos grãos de areia, cada gota d’água,
Que toda a construção
permeia.
Há pessoas que vêem o que querem
Ver, e vivem como querem
viver.
Essas pessoas não têm asas, não.
Não têm chaves de cofres, não.
Mas elas podem voar, podem ter
Tudo que a mente delas ousar.
Pois
que descobriram de todos
O maior segredo. Que seja o mar
Seja a terra,
seja o que for,
Se não temos medo, podemos criar.
A felicidade e a
tristeza, a dor
E a harmonia, estão nas nossas
Mãos, imensamente.
Eternamente.
São como pedreiros que não vêem
O prédio inteiro em
cada tijolo.
by Vini Werneck
Nenhum comentário:
Postar um comentário